terça-feira, 25 de junho de 2019

Os macumbagélicos, um povo não alcançado

Imagem: Pixabay

Pr. Cleber Montes Moreira


Sempre recebo vídeos e/ou links de postagens sobre atrações do circo gospel, algumas repetidas, outras consagradas, e também novidades. Desde pastores ungindo água no monte, profetisa com manto vermelho ostentando poder, pessoas se acotovelando para tocar na “arca da aliança”, apóstolos consagrando vassouras, lideres oferecendo cursos destoados da Bíblia sobre “batalha espiritual”, igrejas com bloco no carnaval, até performances ousadas de crentes no “picadeiro da fé” (isso porque não dá pra chamar certos ajuntamentos de igreja).


Recebi um vídeo de (in)fiéis rodopiando num “terreiro” macumbagélico. Bem, eu não encontrei um nome apropriado para aquele lugar onde “em nome do Senhor” pessoas pulavam e dançavam — prática apelidada de “reteté gospel” —, como se estivessem em transe (falo sem a intenção de ofender aos afro religiosos). Histeria pura, como ainda não tinha visto. Não sei se estavam possuídas, ou se buscavam seus quinze minutos de fama. Seja como for, este é um retrato fiel da realidade caótica deste universo de “evangélicos sem o evangelho”, já denominados por alguns de “cristambeiros”. Eles não são sal, são mundo; não são luz, são trevas, e precisam urgentemente ser evangelizados. Quem sabe no futuro envidaremos esforços para fazer missões entre os macumbagélicos, um povo não ainda alcançado?! Afinal, o Senhor mandou: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Votos Sologâmicos

Imagem: Pixabay



Pr. Cleber Montes Moreira

Porque haverá homens amantes de si mesmos…”(2 Timóteo 3:2)


A data escolhida, o sábado, dia 11 de maio de 2019. O horário, às 11 horas. O lugar, a Chácara Santa Felicidade, pertencente a um tio. A ornamentação, de tirar o fôlego; parecia um conto de fadas. Tudo perfeito, como planejado. Naquele dia, a noiva não atrasou.

No altar o ministro religioso aguardava, enquanto os convidados, confortavelmente acomodados, dirigiram seus olhares em direção àqueles que, ao som de uma música, executada por uma banda local, caminhavam lentamente sobre o tapete vermelho e entre arranjos floridos, pausando para fotos: casais de padrinhos, os pais da noiva, a florista e uma dama que trazia uma joia e um pequeno espelho com moldura e ornamentos dourados, após os quais eis que surge a noiva, linda, disputada por fotógrafos e cinegrafistas, bem como por amadores que com seus smarphones procuravam eternizar imagens daquele momento ímpar.

Atenta, Giulianna, de 26 anos, já no altar, ouvia emocionada uma canção oferecida por Carla, uma amiga da faculdade. O oficiante fez um pequeno sermão sobre o amor, e em seguida a dama apresentou o anel cravejado de diamantes que a própria noiva colocou em seu dedo anular esquerdo, para então, segurando o espelho, proferir votos:

Eu, Giulianna Graziane, prometo me amar, me respeitar e ser fiel a mim, a lutar em defesa de minha honra, a perseguir meus ideais, cuidar de minha saúde e bem-estar, buscar minha felicidade, apreciar as coisas boas da vida, e não desistir de mim na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até os fins de meus dias.

Após a noiva beijar a própria imagem no espelho, o ministro impetrou a Benção Araônica e Carla cantou mais uma música durante o recessional.

Embora esta seja uma história fictícia, o casamento sologâmico é uma realidade. Não falo do tipo de cerimônia descrita acima, já comum em várias partes do mundo, mas sobre a realidade explícita em nossa sociedade: pessoas “amantes de si mesmas”, casadas consigo mesmas, narcisistas, egolátricas; comprometidas com seus próprios interesses, sonhos e valores, indiferentes ao próximo e alheias a Deus. O problema é que quando um transtorno se torna padrão de comportamento, ele deixa de ser considerado patológico. Assim, o sologanismo já não é percebido como patologia social, de tão comum que é: ser “amante de si mesmo” se firma cada vez mais como característica deste tempo em que indivíduos se autoveneram.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Doutrinas de demônios

Imagem: Pixabay


Pr. Cleber Montes Moreira


Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência.” (1 Timóteo 4:1,2 grifo do autor)



Eis que recebo, bem cedinho, dentre outras, uma mensagem de “Bom Dia” daquelas que estragam o dia, a não ser pela graça de Deus que dá calma suficiente, mas permite o senso de indignação. Com uma bela imagem ao fundo, o texto diz:
Deus investiu tanto em você porque só Ele sabe realmente o valor que você tem. Ele planejou você para um propósito especial que só você poderá realizar. Acredite, você é o melhor de Deus. Bom dia.

Antes um colega compartilhou, indignado, um link de um vídeo de um jovem pastor que num sermão exaltava o homem como o “centro”. Sim, o pregador ousou afirmar isso im-pu-do-ra-da-me-nte!
Você é o centro de tudo isso que vou dizer agora (…). Você é o centro dessa palavra (…). Jesus é o centro, da Bíblia Jesus é o centro, do evangelho Jesus é o centro, mas de Jesus, você é o centro, do coração de Jesus, você é o centro…1

Noutra ocasião já havia dito:
Quando se trata de você, você é o ponto fraco de Deus.
Talvez tenha aprendido isso nos livros de autoajuda que afirmou ter lido. É Provável que alguns pensem na divindade como não tendo sentido algum sem o “centro” (você).

Penso em João Batista, Paulo, Pedro, João e outros apóstolos sobre como consideravam a si mesmos: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30); “Miserável homem que eu sou…”; “Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”; “Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (Romanos 7:24; 1 Timóteo 1:15; Atos 20:24); “Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te, que eu também sou homem” (Atos 10:26). Nenhum deles se considerou como o “centro”, e nenhum deles ensinou que “você é o centro”, antes viveram para exaltar Aquele que é sobre tudo e todos, Criador e Sustentador de todas as coisas (Colossenses 1:15-17; Romanos 11:36).

Outro dia, ao entrar na página de uma igreja visualizei em destaque este convite:
Atenção! Você tem a chance de ser contratado pela Sony Music! Vai acontecer o festival de música gospel e você não pode ficar fora dessa. Faça agora sua inscrição pelo site*** venha adorar a Deus e ainda ser reconhecido pelo seu talento.

Destaco: “Venha adorar a Deus e ainda ser reconhecido pelo seu talento.” Nada pode ser pior que uma adoração interesseira, que a busca por uma relação com Deus visando dividendos. Isso nada mais é que amar a si mesmo, que se colocar como o centro de tudo, que fazer de Deus um mero serviçal.

Nada novo debaixo do sol! Não é de hoje que o evangelho se tornou para muitos um recurso de empoderamento humano. Sermões, palestras e canções com temas antropocêntricos, treinamento coach visando alcançar sucesso temporal, e outros recursos focados no homem são apenas alguns dentre tantos elementos deste evangelho humanista.

Que não sejamos seduzidos por mensagens supostamente bíblicas que afagam os ouvidos, que atraem multidões e enchem o inferno, pregadas por “homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência”, pois elas são “doutrinas de demônios”.

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1 https://www.youtube.com/watch?v=sk0i09fYKSM (acessado e 06 de junho de 2019)

terça-feira, 4 de junho de 2019

Amor que mata



Pr. Cleber Montes Moreira

Porque haverá homens amantes de si mesmos(2 Timóteo 3:2)


Uma notícia que abalou o Brasil, com repercussão na imprensa e redes sociais, aparece no site do Correio 24 horas com o seguinte título: “Com ajuda da companheira, mãe mata e esquarteja filho no DF.”1

O pequeno Rhuan Maicon da Silva Castro, de apenas 9 anos, foi morto enquanto dormia com uma facada no coração, depois teve seu corpo esquartejado. As assassinas, Rosana Auri da Silva Cândido, 27, mãe do menino, e sua companheira, Kacyla Pryscila Santiago Damasceno Pessoa, 28, ainda tentaram sem sucesso queimá-lo numa churrasqueira, depois colocaram partes numa mala e jogaram num bueiro no bairro onde moram. O corpo foi encontrado por meninos que jogavam bola, por volta de 1h30min, que por curiosidade, quando as mulheres saíram, foram ver o que tinha dentro da mala. Outras duas mochilas com partes do corpo foram encontradas na casa delas. A meia irmã de Rhuan, de 8 anos, filha de Kacyla, que dormia na hora do crime, foi encaminhada para o Conselho Tutelar. Por meio de desenhos, ela contou que chegou a ver partes do corpo do irmão.

O site ainda informa:
Segundo o Conselho, Rhuan teve o pênis decepado há 1 ano pela mãe. A conselheira Claudia Regina Carvalho contou ao Uol que Rosana e Kacyla queriam transformar Rhuan em menina. Elas alisavam o cabelo dele, que era longo, todo dia. “Foi uma espécie de cirurgia de mudança de sexo. Após retiraram o pênis, elas costuraram a região mutilada e improvisaram uma versão de um órgão genital feminino, fazendo um corte na virilha”, conta.
Ao tomar conhecimento do fato, logo pensei no amor de mãe. Como falamos sobre esse amor, como é exaltado em poemas, canções, artigos diversos, livros etc.! Quando pensamos em mãe, pensamos também num amor elevado: incondicional, altruísta, abnegado, sacrificial… amor que não podemos descrever em toda a sua beleza e extensão. Porém, concluo que nem todas as mulheres que dão à luz são realmente mãe, algumas se tornam até assassinas.

Creio que este comportamento esteja relacionado ao que a Bíblia fala sobre o esfriamento do amor: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mateus 24:12). Neste tempo a corrupção humana atinge níveis inimagináveis, de modo que os maus se tornam cada vez piores. Mas há algo aqui a observar: enquanto o amor ao próximo diminui, o amor-próprio, não como virtude, aumenta mais e mais. Assim, mais uma vez percebemos que se multiplicam no mundo os “amantes de si mesmos”, descritos por Paulo como: “egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder” (2 Timóteo 3:2-5 NVI). Embora o autor não tenha usado a palavra “homicida”, podemos dizer que está subentendida no texto.

Os “amantes de si mesmos” fazem tudo por “amor”. Aquelas mulheres “mataram por amor”, amor-próprio; porque consideravam que o menino era um prolema para o seu relacionamento. Por terem aversão a homens, queriam transformá-lo em menina. A própria meia irmã, tendo má influência dentro de casa, já olhava para Rhuan com preconceito. Esta “escola do amor”, deste amor a si mesmo, amor egoísta, é capaz de formar novos discípulos por meio do mau exemplo. Há muita gente matando por causa deste “amor”.

Guardadas as devidas proporções, este comportamento homicida se faz presente e muito forte em nossa sociedade. Talvez bem mais que imaginemos. Assassinos não matam só com facadas, não são apenas os que matam o corpo, mas também aqueles que, embriagados de amor-próprio amantes de si mesmos” ―, deixam de gastar tempo com as pessoas, de demonstrar interesse genuíno, sentimentos sinceros, lealdade, de oferecer ajuda, de ser companheiro, amigo verdadeiro, de estar ao lado… As armas de um assassino também podem ser a negligência, o silêncio, certas palavras, atitudes inadequadas, a indiferença, o abandono… Será que por causa de um amor egoísta, por cuidar tão obstinadamente de nossos próprios interesses em detrimento do bem do próximo, também não nos tornamos homicidas? Precisamos pensar sobre isso!

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