segunda-feira, 19 de outubro de 2015

FUMAÇA, FOGO E PREJULGAMENTOS

“Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mateus 7:1)


Pr. Cleber Montes Moreira


Há duas frases da sabedoria (ou ignorância) popular sobre as quais quero refletir. A primeira diz: “Onde há fumaça há fogo.” A segunda é um provérbio português, que afirma: “O povo aumenta, mas não inventa.”

Quando pessoas fazem tais afirmações sobre boatos que circulam a respeito de outras, sejam do círculo de sua convivência, da sociedade local, de celebridades, políticos etc, sobre qualquer assunto, acabam, ainda que inconscientemente, usando uma regra preconceituosa para medir a todos, indistintamente. Eu chamo isso de “prejulgamento”, ou seja, estabelecer opinião, juízo, julgamento, firmado em suposições. Com base nesta regra, qualquer calúnia será tida como verdadeira, pois “onde há fumaça há fogo”, ou “já houve”, e “o povo aumenta, mas não inventa.”

Em 2014, Fabiane Maria de Jesus, aos 33 anos de idade, foi vítima deste tipo de prejulgamento. Ela faleceu dois dias após ser espancada pode dezenas de moradores de Guarujá, litoral de São Paulo, por ser parecida com uma pessoa de uma foto que circulava na internet, supostamente sequestradora de crianças para utilizá-las em rituais de magia negra. Bastou que alguém a “reconhecesse” como a pessoa da foto para que outras, baseadas neste “reconhecimento”, fizessem “justiça com as próprias mãos.” Detalhe: a nota divulgada na internet, desencadeadora da confusão, era falsa.

Outro caso, ocorrido há mais tempo, foi de um casal que fazia transporte escolar na Cidade de São Paulo, acusado de abusar sexualmente das crianças que transportava. A notícia ganhou notoriedade na TV e nos jornais. Os acusados tiveram sua vida devassada. A cada dia surgiam novas denuncias e testemunhos sobre crianças violentadas. Pela opinião pública, o casal já estava julgado – era, sem qualquer dúvida, culpado! Entretanto, após tanto barulho houve um longo silêncio: as emissoras de TVs, os jornais televisivos e impressos pararam de noticiar sobre o assunto. É que descobriu-se que o casal era inocente. O Ministério Público deu o caso por encerrado, e permitiu a troca dos nomes dos acusados para que pudessem iniciar uma vida nova. Mas, o prejuízo foi incalculável e as feridas criaram marcas que ficarão para sempre na memória.

No dois casos citados, a sabedoria popular revelou ser uma enorme ignorância: havia fumaça, mas não fogo; o povo inventou e aumentou, sem dó nem compaixão, com o agravante de falsos testemunhos. É certo que até aqueles que fazem uso de tais regras, não querem ser julgados pelos mesmos critérios. Este julgamento impiedoso, injusto e punitivo é severamente combatido por Jesus: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” (Mateus 7:1,2). Comentando o ensino de Jesus, William Barclay disse bem: “Houve tantos casos de julgamentos equivocados que se acreditaria que os homens deveriam aprender a abster-se totalmente de julgar a outros.” Os juízes erram, quanto mais as pessoas comuns.

“Ouvi dizer” não é, necessariamente, verdade. Nossa opinião deve ser formada com base nos fatos, e não em boatos. Cuidado com as calúnias, além de ser pecado têm poder destruidor. Podemos formular juízo, opinião embasada, mas não estabelecer prejulgamentos e condenações. Deus nos deu senso crítico, mas não nos constituiu juízes. E, finalmente, a Bíblia e não a “sabedoria” popular deve reger nossas convicções e ações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário