terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Reflexões sobre o culto cristão

Uma visão pastoral

Palestra ministrada a pastores no Congresso de Música, na PIB do Brás (SP), em 24 de maio de 2002
É auspicioso que a PIB do Brás esteja a promover este Congresso cujo objetivo é estudar o Culto Cristão, à luz da Palavra de Deus.
Este evento faz-se tão mais necessário quanto se verifica tanta confusão em matéria de culto e adoração, por falta de uma filosofia e de uma teologia bíblicas do culto, nestes começos do século 21.
Pois bem. A comunidade batista internacional está preocupada também com o assunto, eis porque a Aliança Batista Mundial promoveu em 1999, em Berlim, na Alemanha, um Congresso de Adoração cujos resultados podem ajudar-nos a compreender a importância da adoração e os desafios que ela enfrenta neste tempo.
Também a União Batista Latino-Americana promoveu, com apoio da ABM, congresso semelhante de que resultou, além dos trabalhos apresentados em plenário e nas “oficinas”, a Declaração de Niterói.
Os documentos de Berlim e de Niterói oferecem diretrizes básicas de uma teologia e práxis do culto cristão, a ajudar igrejas e pastores de nossa denominação, e – por que não? – de outras também.
O evento que aqui se celebra deve ajudar-nos a compreender o imperativo do culto e as formas que ele deve assumir para ser agradável a Deus e promover a Sua glória.
As palestras que trago aos pastores podem coincidir com outras que já tenham ouvido, neste mesmo conclave, o que de certo vai contribuir para que se enfatizem preocupações, doutrinas e diretrizes para o culto hoje.
Natureza e propósitos do culto cristão
“O culto constitui a ação mais momentosa, mais urgente e mais gloriosa que pode acontecer na vida humana”. (Karl Barth)
Que é o culto? Que é prestar culto a Deus? Qual a natureza mesma do culto? Por que cultuamos a Deus? Que perigos o culto cristão está a correr? Como há de ser o culto aceitável diante de Deus?

QUE É O CULTO?
Culto é reverência, é atribuição de valor absoluto, é busca de Deus ou resposta a Deus.
O culto cristão constitui, diferentemente doutras formas que o culto assume no panorama religioso da Humanidade, quando parece uma busca ansiosa de Deus, ou tentativa de aplacar a ira de Deus, e, aos gritos, o ser humano clama por um Deus distante, resposta da criatura remida por Jesus Cristo, alcançada por Sua graça, ao imenso amor de Deus, mediante expressões de louvor e adoração.
No culto, o coração da igreja pulsa, renovam-se-lhe as energias espirituais, o povo de Deus respira a atmosfera do céu, ao mesmo tempo em que leva ao Senhor as dores e aflições da terra.
Como lembra Beasley-Murray, o culto é a ocasião em que, como homens e mulheres, realmente nos sentimos vivos; quando nós, seres humanos, criados à imagem de Deus, começamos a cumprir o propósito mesmo de nossa existência, a relacionar-nos com o Deus que nos fez.
Uma das mais belas definições de culto, e lembrada em todo o mundo, é a de William Temple: “Cultuar é avivar a consciência pela santidade de Deus, alimentar a mente com a verdade de Deus, purificar a imaginação pela beleza de Deus, abrir o coração ao amor de Deus, devotar a vontade aos propósitos de Deus”.
Ou, como diz Martin-Achard: “para o presente, constitui o traço de união entre o passado rico em atos grandiosos do Senhor de Israel e da Igreja, e o porvir tão cheio das promessas do reino celeste. Ele diz aos crentes donde eles procedem e para onde os conduz a história, apresenta-lhes ao mesmo tempo a maravilhosa benevolência e a sagrada exigência de Deus. O culto atualiza a Palavra que une a Deus o povo escolhido, fazendo-a mais presente e viva para aqueles que se congregam a seu chamado, assim abre aos membros do povo escolhido o caminho do serviço, fortificando-lhes a fé, estimulando-lhes a esperança e despertando neles o amor divino. O culto é o lugar venturoso de encontro dos fiéis com seu Deus, enquanto esperam a vinda de seu reino”.

QUAIS OS ASPECTOS DO CULTO?
O culto é sacrifício (de animais no AT, de nossos próprios corpos, no NT (Rm 12.1); é temor (Gn 15.12, Is 6.5; Hb 12.28,29); é alegria (2Cr 29.27,30; 1Cr 16.8-35; Sl 146-150); é comunhão (Ex 33.11; 1Jo 4.18); é louvor (2Cr 20.18,22; Jo 4.24); é obediência (1Sm 15.22; Jo 14.15) e é êxtase ou celebração (Gn 15.12; 2Sm 6.13.14).
Como sacrifício, o culto dá ênfase à oferta da própria vida; como temor, enfatiza a reverência; como alegria, a felicidade; como comunhão, a intimidade com Deus; como louvor, ação de graças; como obediência, amor; como êxtase ou celebração, a adoração.

POR QUE O CULTO?
Por que o ser humano há de cultuar?
O homem foi criado por Deus para o relacionamento e comunhão com Ele, e a natureza relacional do ser humano e sua transcendência exigem o culto, eis por que, quando não adoram o verdadeiro, os seres humanos elegem deuses falsos.
Por outro lado, o homem pende para Deus como as plantas se voltam para o sol, no fenômeno do heliotropismo. A esse inclinar-se do homem para Deus podemos denominar de teotropismo. O culto constitui, pois, imperativo desse pendor teotrópico do homem.
Também o desejo de “conhecer” e “dominar” a divindade é outra razão para cultuar, para adorar.
Por fim, o culto faz-se imperativo pela natureza mesma da igreja, como “comunidade de adoração”.
Aliás, sobre isso diz F.M. Segler que “a igreja nasceu no culto e sua vida é sustentada pela comunhão com seu Senhor vivo. A congregação adoradora é realmente uma comunidade da ressurreição”.
Mas o culto é também imperativo de corações agradecidos. Ele é resposta à bondade, ao amor, à revelação de um Deus que “busca adoradores”.
Anjos e homens, grandes e pequenos, dirigentes e congregação, todos devemos prestar culto a Deus, enquanto oramos, louvamos, lemos a Palavra de Deus, ouvimos a mensagem de Deus.
Ninguém comparece na Casa do Senhor apenas para “assistir ao culto”, como mero espectador, como se estivesse num teatro. Não e não. Somos todos chamados a adorar a Deus que é Espírito, o que implica em que o culto no qual Ele tem prazer é espiritual – o sacrifício de um coração humilde, contrito, grato e adorador.

“EM ESPÍRITO E EM VERDADE”, QUE SIGNIFICA?
Disse Jesus, na conversa com a samaritana, que Deus, o Pai, busca adoradores que o adorem em espírito e em verdade”.
E que significa adorar “em espírito e em verdade”, como Jesus fala à samaritana?
Adorar em espírito é fazê-lo em harmonia com o Espírito, e assim adorar a Deus em verdade.
Aliás, uma tradução sugerida para João 4.24, seria: “Deus é Espírito, e somente pelo poder de seu Espírito as pessoas podem adorá-Lo como Ele realmente é”.
O culto “em espírito e em verdade” não é o que se presta de maneira formal, insincera, em que se divorciam coração e lábios; e em que a consciência se mostra distante dos atos de louvor e adoração.
Perigos do culto em nossos dias, e como ele deve ser prestado a Deus
Ambos os eventos a que fiz referência na apresentação desta palestra apontam, nos documentos a que deram origem, alguns perigos que precisam de ser enfrentados ou evitados. Por exemplo:
1) Lugar menos honroso à pregação, à Palavra, a Jesus Cristo cuja pessoa e cujos ensinos são pregados, e mais honra ao pregador;
2) A música pode tornar-se espetáculo e seu objetivo, artístico e não a edificação dos crentes, o testemunho das verdades do Evangelho e, sobretudo, a glória de Deus;
3) Dar menos importância às ordenanças do Batismo e da Ceia do Senhor, tornando-os meros “apêndices” do culto e não parte essencial dele;
4) Falta de ênfase na doutrina e prática do sacerdócio universal dos crentes, em prejuízo da comunidade de fé e testemunho, confiando ao ministério ordenado a direção e as partes principais do culto;
5) A oração perde importância também como oportunidade de ouvir a Deus: muita vez cantamos e falamos, e os decibéis de nosso louvor não permitem o silêncio e quietude para ouvir a voz do Senhor com quem, no culto, dialogamos.
O Congresso realizado em Niterói assinala, no documento denominado Declaração de Niterói sobre Adoração, que são algumas de suas preocupações:
1) a transformação, com muita freqüência, do culto em “show” e exibição de beleza musical ou de talento retórico, como seu objetivo principal;
2) a “clericalização” do culto, com suas principais funções exercidas por ministros ordenados;
3) a informalidade excessiva, a improvisação, a desarmonia e desarticulação entre as partes do culto;
4) a hipertrofia dos chamados “momentos de louvor” nos cultos, em detrimento da ministração da Palavra que orienta, alimenta, santifica, conduz à fé e à vida de compromisso com Deus, em alguns casos pretendendo substituir a pregação pelos cânticos;
5) a focalização do culto na pessoa humana, no seu prazer e divertimento, cambiando a ênfase da ética para a estética, do ser santo para o ser feliz e realizado como pessoa;
6) também a consideração das ordenanças do Batismo e da Ceia do Senhor como apêndices do culto e não como artes essenciais dele, portadores que são das grandes verdades da fé cristã.
Resumo, a seguir, os perigos do culto hoje, explícitos ou latentes nos documentos finais dos dois conclaves, e objetivo de minha reflexão ao longo dos anos, e hoje no contato com grande variedade de igrejas e de estilos de culto.

QUAIS OS PERIGOS QUE VEJO?
1. Em primeiro lugar, a tentativa ou pretensão humana de manipulação de Deus, o que é uma forma de magia.
Gerhard Von Rad acredita que o próprio Moisés, ao tentar saber o nome de Deus, podia ter a pretensão de “conhecê-lo”, para “dominá-lo” ou pô-lo a seu serviço.
Diz ele: “O homem anela pela revelação de Deus não só por causa de Deus, a fim de que ele seja cultuado e adorado, mas, na realidade, por sua própria causa. É porque ele precisa de Deus, que deseja chamar por seu Nome. Exatamente porque sente tal necessidade intensa de Deus, que almeja tê-lo permanentemente no seu domínio. Ele quer um Deus que em certo sentido se torne parte dele mesmo; o homem quer pôr Deus a serviço dele (...) Numa palavra: a pergunta de Moisés sobre o nome de Deus constitui a um tempo expressão da necessidade humana de Deus e do descaramento humano em relação a Deus”.
2. Pretensão de submeter o Eterno a uma liturgia, é outro perigo. É o que poderíamos chamar de “liturgismo”.
3. Formalismo legalista é outro perigo, como verificamos na experiência do povo de Israel, que Deus exprobra pela instrumentalidade de Isaias.
(Vide Isaías 1. Diz Deus que está cansado de “sofrer” aquele culto meramente exterior, formal, de ruído estrepitoso, mas sem vida espiritual.)
Não adiantam o louvor, os instrumentos, os sacrifícios, o incenso, se as mãos estão manchadas e os corações, cheios de maldade.
4. Outro perigo, ainda, é a de centralização do culto no homem, a ênfase nos sentimentos, quando passamos longo tempo a dizer a Deus como nos sentimos. E assim, em vez der ser Deus o centro do culto, nós é que nos tornamos.
É o caso de muitos dos “corinhos” ou “hinetos” dos “momentos de louvor em nossos dias.
Lembremo-nos, no entanto, desta grande verdade: “Um encontro com Deus pode tornar-se algo realmente doloroso e uma chamada ao sacrifício, à entrega, à abnegação”.
Como disse alguém: “A convocação (do culto) não é tanto ‘Sorri, Deus te ama’. Antes: ‘Arrepende-te, chora, treme’!”

COMO HÁ DE SER, ENTÃO, O CULTO ACEITÁVEL DIANTE DE DEUS?
Comunidade litúrgica que é, como a igreja há de cultuar a Deus, de maneira aceitável?
* Já vimos que o culto há de ser espiritual: “em espírito e em verdade”.
* O culto há de ser prestado só a Deus (Pai, Filho e Espírito Santo).
Aos anjos não se há de cultuar, nem aos homens, mesmo que sejam apóstolos do Senhor. Não se há de prestar culto a nenhum outro ser.
* O culto há de privilegiar a Palavra de Deus. O culto sinagogal exerceu forte influência sobre o culto cristão. A propósito, assinala Humberto Porto: “O ofício sinagogal, com salmos, louvores, leituras, sermão e preces, delineou a estrutura da sintaxe da igreja. No shabbat e em dias festivos. Podia um dos presentes por ocasião dos serviços religiosos, após a leitura da perícope da Torá e o respectivo trecho profético, usar a palavra. Desta possibilidade, Jesus e os apóstolos lançaram mão para pregar o evangelho aos judeus reunidos na sinagoga (Mt 4.23; Lc 4.44; At 13.5)”.
O modelo da sinagoga, mais do que o do templo, constitui paradigma do culto cristão evangélico que tem na Palavra, e não no rito, o fulcro de sua preocupação.
* O culto há de ser prestado por lábios purificados, que confessam o nome do Senhor.
* O culto há de ser da comunidade inteira, não de oficiantes privilegiados.
* O culto há de ser de todo o nosso ser, e com a inteligência e as emoções.
* O culto há de produzir mudança de vida, santidade e disposição de servir.
Com efeito, o culto verdadeiro não nos deixa os mesmos que entramos no templo: faz-nos assumir novas atitudes de renúncia ao pecado, de busca da vontade de Deus em todas as áreas da vida, de serviço dedicado e de testemunho efetivo.
No interior de muitos santuários, acima do púlpito, costuma-se ler: “Aqui nós vimos para adorar; daqui saímos para servir”. E é isso mesmo. O culto deve levar-nos ao conhecimento da vontade de Deus, quando nos reunimos em adoração, e, depois, à disposição firme de cumpri-la em todas as áreas de nossa vida.
* Como o culto é resposta humana ao amor de Deus, deve ser prestado dentro das categorias da cultura de cada povo, e não por meio de formas culturais alienígenas – a menos que universalmente aceitas.
Sabemos que nenhuma cultura é superior a outra, e toda cultura contém elementos demoníacos a serem rejeitados, mas, também, elementos de beleza e verdade a serem aproveitados e santificados, em nossas expressões de adoração.

CONCLUSÃO
Que assim compreendendo a natureza mesma do culto, seu imperativo, seus perigos e as condições de sua aceitabilidade perante o Eterno, aprendamos a cultuar realmente “em espírito em verdade”, com orações, testemunho e louvor que brotem de “lábios que confessam o nome de Jesus”, a evitar os perigos à genuína adoração, a glorificar a Deus, a edificar a igreja, e a abençoar o mundo.
Com a oração de Paulo pelos efésios, concluo: “Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém!”
Glória, pois a Deus, na igreja!


Irland Pereira de Azevedo
Conferencista, professor, pastor emérito da
PIB de São Paulo

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